A saga das rodas de 29”
Já decorreram pelo menos meia dúzia de anos (2006/2007) quando se começou a falar, e a projetar, com consistência, em bicicletas de roda 29”. Foram marcas americanas de bicicletas que deram o pontapé de saída a esses projetos; porque, entre outras razões, qualquer indivíduo com mais de 1,80m de altura, frequentes em terras do tio Sam, sentado numa bicicleta de roda 26, fica ligeiramente desproporcionado. Não é por acaso que nas bicicletas para criança e para jovens se dá muita importância ao tamanho (12, 16, 20, 24…) da roda; por ter a ver com uma certa proporção no escalonamento das dimensões individuo/bicicleta, com consequências no âmbito do conforto/ergonomia (adequação das proporções) e no da segurança (sensação de altura e rapidez de levar o pé ao chão).
Com o avançar da execução destes projectos começou a perceber-se, e é fisicamente demonstrável, que o tamanho da roda influencia bastante o comportamento dinâmico da bicicleta. A transposição de pequenos obstáculos é realizada de forma mais linear; a motricidade em zonas mais escorregadias e/ou com obstáculos rolantes é maior; a capacidade de rolar a uma velocidade mais elevada e mais constante, para quem tem pernas, fica facilitada. Acresce também o conforto, pois a maior quantidade de borracha dum pneu para uma roda maior e mais quantidade de materiais necessários para fazer o envolvimento dessa nova dimensão de roda contribuem para a absorção e filtragem das vibrações. A escora inferior (tirante que liga a zona da alavanca dos pedais à roda) é obviamente maior, por isso mais flexível e consequentemente mais confortável.
Como tudo na vida tem um preço, os projetos roda 29” andaram meio comprometidos por questões que se prendiam com a grande distância entre eixos e consequente perda de “manobrabilidade”, pela maior inércia* das rodas (desvantagem nas acelerações e nas subidas puras), mais peso total por exigência de mais quantidade de material… todos estes senãos e contrapontos tiravam apetência a este produto nomeadamente quando o potencial utilizador se tratava de um ciclista dinâmico e principalmente quando a utilização da bicicleta se destinava à exigente atividade todo terreno (btt).
Em termos absolutos, qualquer ciclista que se sentasse numa bicicleta de roda 29 (as dos projetos iniciais) percebia de imediato que a dita era muito comprida e pouco manobrável, alta e menos equilibrada (centro de gravidade mais elevado) que as de roda 26” e também que os pés, incomodamente, tocavam com frequência na roda da frente (pelo seu maior diâmetro a roda penetra mais para o interior da bicicleta).
Todos estes senãos estão a ser, ao longo do tempo, tática e estrategicamente ultrapassados pelos fabricantes.
A persistência dos produtores e a vontade das equipas de marketing otimizaram a reinvenção de uma série de soluções que estão a tornar, finalmente, as bicicletas de roda 29 muito mais apetecíveis, simpáticas e coerentes do que na fase de início dos projetos. Assim, ao longo das experiências:
- encurtaram as escoras inferiores (mais rapidez e menos perda de energia na resposta do pedalar);
- afastaram o tubo do espigão do selim da roda traseira verticalizando-o (esta solução é dúbia porque antecipa ligeiramente a otimização da pedalada), ou, entre outras e de forma mais engenhosa,
- colocando o tubo de espigão de selim avançado em relação ao movimento central (ou botton bracket que passaremos a designar por BB, que é o eixo através do qual se movimentam as alavancas dos pedais) com vantagens pelo encurtamento do triangulo principal da bicicleta e simultaneamente conseguindo otimizar (efeitos na posição preferencial de pedalar) o ângulo do tubo do espigão do selim;
- verticalizaram o ângulo de ataque da roda dianteira tornando a bicicleta mais curta entre eixos, mais rápida a reagir e melhor trepadora;
- colocaram avanços (elo de ligação da coluna de direcção ao guiador) mais curtos e guiadores maiores (mais difíceis de passar em zonas estreitas mas mais rápidos de reação);
- baixaram substancialmente a altura do movimento central (BB) melhorando o equilíbrio e a altura do centro de gravidade da bicicleta e a sensação de segurança e a segurança no seu todo.
Com todos estes melhoramentos tornaram as bicicletas de roda 29 um produto muito apetecível e há quem se encoraje a afirmar, e não é o meu caso, que serão estas as bicicletas do futuro. Tenho em convicção que serão projetos com futuro mas não propriamente “os do futuro”.
Desafiem-me para uma roda 29 totalmente rígida (sem amortecedores nem suspensões, em bom cromoly e com forqueta e rodas leves mas eficazes), com equipamento que a coloque abaixo dos 10kg e sei que me transporto numa bicicleta simples, hiper polivalente e muito agradável para excelentes passeios rolantes, longos ou curtos, em estrada e fora dela, por cima de passeios ou a descer uma escadaria simples, mesmo que comporte alguma agressividade, seja em descidas ou subidas técnicas… e garanto-vos que ninguém vai ficar mal visto e vai adorar a bicicleta e a sua simplicidade visual e dinâmica.
Primus Master
Nota: * por inércia entende-se a resistência que um corpo oferece à alteração do seu estado de repouso ou de movimento.
Escrito ao abrigo do novo Acordo Ortográfico
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